quarta-feira, 11 de janeiro de 2012


“Montar “Capitães do Morro” é o ponto de partida do Teatro como veículo fomentador do debate, conduzindo a plateia a um desfecho inesperado e a viva esperança de que ainda exista indignação, solidariedade e compaixão”.


O Morro, como todo o restante da cidade grande, pulsa. Há pessoas que entraram no Morro, para nunca mais sair. Há pessoas que fazem do Morro uma casa de passagem. Há pessoas que escolheram o Morro como lar. Há pessoas – e essas não são poucas – que estão no Morro, porque não têm aonde ir. Morar no Morro virou sinônimo de bandido. Menino é “sujeito-homem”; menino já nasce grande; menino brinca de “bondinho”.
O cotidiano do alto permeia o espetáculo “Capitães do Morro”, narrado pelas memórias de Pedro Bala, ex-membro da pique-facção, obrigado a seguir o caminho do tráfico, abandonar a escola e renegar sua fé. Uma história comum, com bandidos comuns, situações comuns.

O espetáculo é retrato – e ao mesmo tempo – alerta, porque trata da disseminação da droga na comunidade fictícia do Rombudo de Cima e traz à tona um debate sobre os principais impactos do consumo assustador de entorpecentes na comunidade. Não é, nem de longe, uma apologia ao crime. Pelo contrário, relata, através da arte, como a vida nos parece injusta e o destino selado, ao tratar de vidas abandonadas à própria sorte.
Montar “Capitães do Morro” é o ponto de partida do Teatro como veículo fomentador do debate, conduzindo a plateia a um desfecho inesperado e a viva esperança de que ainda exista indignação, solidariedade e compaixão. O espetáculo recorre a padrões clássicos de narrativa, nos quais há o envolvimento característico e intenso da plateia com a trama como a fragmentação temporal e a montagem criativa. O final é decidido antes de cada apresentação. Ele sempre aponta para dois caminhos que é escolhido involuntariamente pelo público.

A abordagem do universo de Pedro Bala, sem concessão ou sentimento compassivo, revela como são e vivem os “Capitães do Morro”, meninos do tráfico, guiados por uma estreita racionalidade e altas doses de arbítrio e firmeza, virtudes não restringidas pelo contexto adverso em que vivem. O Morro é a escola, o mestre da vida; o tráfico é a disciplina, a metodologia de formação. E assim vão crescer (ou não) e se tornar “sujeitos-homens”, na prática de atividades ilegais e no afastamento afetivo.
O espetáculo estreia em junho deste ano.

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